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Exposição traz registros gráficos do passado para inspirar a democracia hoje
Em cartaz no Centro MariAntonia da USP, mostra reúne jornais e pôsteres produzidos durante a ditadura militar (1964-1985) que revelam a reação de movimentos sociais contra a opressão do regime
Por Manuela Trafane - 13/08/2026


A exposição no Centro MariAntonia da USP - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens


Oficialmente, a ditadura civil-militar brasileira acabou em 1985 – 21 anos depois do golpe militar de 1964 –, mas, para os organizadores da exposição Resistir É Preciso… Recortes do Antes no Agora, em cartaz no Centro MariAntonia da USP, ainda é necessário lutar. A mostra reúne 36 cartazes, periódicos e recortes de jornais com mensagens de protesto contra o governo, que circularam durante a ditadura e denunciam a brutalidade do regime. “Precisamos continuar contando essa história porque quem está indo às ruas atualmente para pedir o retorno da ditadura não conhece de fato o que aconteceu naquele período”, afirma a curadora da exposição, professora Maria Ribeiro do Valle, coordenadora do Centro de Documentação e Memória (Cedem) da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), que promove a mostra em parceria com o Instituto Vladimir Herzog e o Centro MariAntonia.

A professora Maria Ribeiro do Valle, coordenadora do Centro de Documentação e Memória da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), curadora da mostra - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

“Naquela época, o meio mais fácil de comunicação entre os militantes políticos era o papel. Eles colavam os cartazes e periódicos em postes e os distribuíam pelos Correios”, explica Valle. No Cedem estão arquivados 120 desses documentos, produzidos em sua maioria por estudantes, operários, intelectuais, mulheres e militantes de diferentes países. “Escolhemos  principalmente os que falam sobre anistia, eleições diretas e movimentos sociais”, acrescenta a professora, insistindo na importância de lembrar o passado para resistir ao autoritarismo e preservar a democracia no presente. 

Anistia para presos políticos e exilados
 
Uma das peças expostas na mostra é um cartaz publicado em 1975 pelo Movimento Feminino pela Anistia – grupo criado naquele ano pela advogada Therezinha Zerbini. No pôster estão desenhados nove rostos femininos, ao lado da frase “Saia da sombra, diga conosco: liberdade”. A última palavra está dividida em sílabas, escritas dentro das bocas de quatro das mulheres.

Surgido em São Paulo, o Movimento Feminino pela Anistia se espalhou para outros Estados, como Minas Gerais e Rio Grande do Sul. O grupo reunia, principalmente, mães e familiares de presos e desaparecidos pela ditadura, segundo o site Memorial da Democracia. Seu objetivo era promover a anistia aos presos e exilados políticos, o que ocorreria em 1979.

Cartaz produzido em 1975 pelo Movimento Feminino pela Anistia - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Outra publicação exibida é a edição número 16 do jornal EX-, um veículo da imprensa alternativa que circulou entre 1973 e 1975, sempre com linha editorial combativa e crítica ao regime. De periodicidade mensal, esse veículo foi o único a denunciar a morte do jornalista Vladimir Herzog, assassinado sob tortura em 25 de outubro de 1975, no Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), em São Paulo, por agentes da ditadura. Foi por conta dessa edição, a última, que o jornal foi censurado e cassado, não voltando mais a circular.

A histórica edição número 16 do jornal alternativo EX, que anunciou o assassinato sob tortura do jornalista Vladimir Herzog, em 1975 - Foto: Arquivo Nacional

Datada de novembro de 1975, a histórica edição número 16 de EX-, que confrontava a falsa versão oficial de que o jornalista havia se suicidado, vendeu cerca de 50 mil exemplares. Na capa, ela traz uma foto de Herzog, ao lado do título “A morte do jornalista Vladimir Herzog”. Em letras garrafais, a manchete diz: “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”.

Está exposto também um impresso com a frase “Construir a democracia agora, mais do que nunca!”, extraído do jornal semanal Voz da Unidade (1980-1991). Além da escrita, aparece o desenho de uma bomba com uma cobra no lugar do pavio, tendo ao fundo pés de pessoas sentadas. 

Essa peça foi feita a partir do Atentado do Riocentro, em 30 de abril de 1981, quando dois militares planejaram jogar uma bomba no show em comemoração ao Dia dos Trabalhadores, que se realizava naquela data no Rio de Janeiro, com a presença de cerca de 20 mil pessoas e a participação de artistas como Gal Costa, Djavan e Ney Matogrosso. O atentado foi frustrado porque a bomba estourou antes da hora, no colo do sargento Guilherme Pereira do Rosário, que morreu na hora. O outro militar, o capitão Wilson Dias Machado, ficou gravemente ferido.

As publicações de protesto contra o regime militar não pararam com o fim da ditadura, como destaca a exposição em cartaz no Centro MariAntonia. Dois cartazes que trazem os rostos de desaparecidos políticos, elaborados em 1989 pelo Comitê Brasileiro pela Anistia e pelo movimento Tortura Nunca Mais, estão na mostra. Essas instituições começaram a produzir impressos ainda nos anos 1970, em resposta a panfletos que o governo distribuía acusando seus opositores de assassinato, roubo e terrorismo. 

Esse material de resistência não se limitava ao Brasil. Ele era produzido até em outros países, como explica a professora Maria do Valle. É o caso do boletim Front Bresilien D’Information, que circulou de 1969 a 1975. A edição número 10 desse periódico, datada de 1971, se encontra na exposição. Criado pelo ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes, o boletim era feito por militantes brasileiros exilados na Argélia, traduzido e adaptado para outros países, denunciando as violações praticadas pelo governo brasileiro. Para o Brasil, ele era enviado clandestinamente para círculos restritos da oposição.

Um símbolo de resistência ao autoritarismo

“Independentemente de estarmos numa ditadura ou não, o Brasil é um País muito autoritário”, afirma Maria do Valle, citando como exemplo a exibição de fuzis e armamentos, em dezembro do ano passado, no Colégio Cívico-Militar Vinicius de Moraes, em Colombo (PR), que gerou forte reação de setores da educação. “Pessoas que conheço sempre me falam: ‘não mudou nada’.”

A professora acrescenta que insistiu para que a mostra acontecesse no Centro MariAntonia por conta do histórico da instituição. “O prédio do Centro MariAntonia, onde funcionava a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, foi destruído em 1968, numa batalha entre estudantes da USP e da Universidade Mackenzie,  que era sede do Comando de Caça aos Comunistas”, lembra Valle, destacando o edifício da USP localizado na Rua Maria Antonia, em São Paulo, como um símbolo de memória e de resistência ao autoritarismo. Para ela, não se pode deixar que os crimes da ditadura sejam esquecidos.

A exposição Resistir É Preciso… Recortes do Antes no Agora fica em cartaz até 28 de fevereiro de 2027, de terça-feira a domingo e feriados, das 10h às 18h, no Centro MariAntonia da USP (Rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque, em São Paulo, próximo às estações Higienópolis-Mackenzie e Santa Cecília do metrô). Entrada grátis. Mais informações estão disponíveis no site do Centro MariAntonia.

 

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